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quinta-feira, 10 de março de 2016

As principais bandeiras do movimento feminino

O Coletivo 8 de março apresenta abaixo as principais bandeiras do coletivo, que julgamos ser os objetivos de todas as mulheres e, por isso, do movimento feminino:


1. luta contra o capitalismo e pelo comunismo, entendido como "livre autogoverno dos produtores" (MARX).

2. luta antissexista, que significa lutar contra o sexismo contra as mulheres em suas várias formas e contra o sexismo contra os homens, através da misandria e certas tendências feministas.

3. lutas por melhores condições de vida, trabalho e luta para as mulheres trabalhadoras, o que inclui o trabalho de formação política, de lutas quantitativas e reivindicativas que melhores as condições para as mulheres lutarem, ao lado dos homens que efetivam tal luta, pela efetiva transformação social, no sentido apontado acima.

Essas três bandeiras fundamentais acabam gerando novas bandeiras derivadas. Uma luta é a longo prazo, que, no entanto, parece se aproximar cada vez mais, que é a superação do capitalismo e instituição do comunismo. Inclusive há surpresas históricas em que isso fica próximo de ocorrer apesar de antes ser inesperado. Derivado dessa bandeira, aparecem outras, como a crítica das ideologias legitimadoras do capitalismo e das raízes da opressão das mulheres, crítica do feminismo que fica nos limites dessa sociedade, trabalho cultural e educativo visando formar as bases para a superação do reino do capital, reflexões sobre o socialismo e muito mais.

A outra luta é específica do movimento feminino. É a luta contra o sexismo, sob todas as formas, incluindo o feminismo. A luta contra o sexismo ocorre por causa de sua lógica, suas práticas e suas consequências, inclusive para as mulheres. A luta contra o sexismo contra as mulheres, especialmente contra as mulheres trabalhadoras, é fundamental e prioridade. Esse é um processo intimamente articulado com o anterior, pois permite pequenas conquistas e espaço de ampliação da consciência visando a superação total do sexismo. Ela atua no plano legal, cultural, político, gerando bandeiras mais específicas, como contra o estrupo, violência doméstica, entre diversas outras.

Essa segunda luta está articulada com a primeira e também com a terceira, que trata de coisas mais imediatas e que são condições para melhoria das demais lutas (apresentadas nas duas primeiras bandeiras). Melhores condições de vida, trabalho e luta, para mulheres e homens trabalhadores, com atenção especial para o caso das mulheres trabalhadoras, sem exclusivismos.

Avante à luta!!! A libertação da mulher (e do homem) é obra das mulheres e dos homens unidos na busca de um novo mundo!!!!

quarta-feira, 9 de março de 2016

MACHISMO OU SEXISMO?



MACHISMO OU SEXISMO?

Stella Anderson[1]

As palavras são armas. Armas bem afiadas, dependendo do caso. A questão é de quem e para combater quem. Judith sempre fala do “machismo” e vê este em todo o lugar e momento, desde que tenha um homem por perto. Certa vez perguntei para ela o que significa essa palavra e ela não soube dizer, apenas citou exemplos e afirmações contra os homens. A palavra “machismo” não é um conceito estabelecido, é apenas uma arma de luta, mal usada e abusadamente. O feminismo, a partir de algumas obras canônicas, tematizou a opressão da mulher e depois foi se cristalizando, perdendo a capacidade crítica e autocrítica, adequando ao mundo circundante e naturalizando o mesmo. A diferença entre esse feminismo caduco e o que ele combate é que coloca mais onde os que elas combate colocam menos e vice-versa. Então é fundamental retomar a discussão a respeito do que as mulheres realmente precisam para sua libertação ao invés do apego dogmático a ideologias produzidas no campo chamado do “feminismo”. O primeiro passo é reavaliar criticamente o feminismo e o uso de termos banalizados como “machismo” e reencontrar o real problema e não ficar com querelas ilusórias.

O primeiro ponto a se destacar é a criação do feminismo como “concepção de mundo”. Certa vez Freud, um homem (o que para muitas feministas “radicais” já é um defeito), foi acusado de ter deixado “metade da humanidade” fora de sua análise. Isso é meia verdade e o feminismo, inclusive o de Beauvoir, é cheio de meias verdades, promovendo ilusões e enganos. Freud abordou sim a mulher. Não como foco e nem como deveria tratar e por isso merece crítica. No entanto, a feminista que repete isso contra Freud também descarta metade da humanidade, sendo ele um integrante desse vasto grupo, só que é a “outra metade”. O feminismo como concepção de mundo é um equívoco a ser superado. Ele só teria sentido como um conjunto de análises e proposições a respeito da emancipação feminina e não uma concepção de mundo global, pois parcial por natureza e que não só parte de uma perspectiva unilateral (a da ideologia feminista) como expressa interesses unilaterais (o das mulheres). O feminismo é separatista e ao separar o mundo entre homens e mulheres, apenas mostra seus limites intelectuais e políticos. O feminismo foi absorvido pelo capitalismo e reproduz sua lógica, inclusive intelectual.

Logo, Deus criou a mulher e o feminismo criou o machismo. Esse é o conto de fadas elaborado pelas feministas e que não se diferencia do mito da criação. Judith não sabe dizer o que é o machismo e na literatura feminista não se encontra um conceito e sim, no máximo e raros casos, uma breve definição sem maior fundamentação. O machismo pode ser definido como uma ideologia? Bom, seria necessário descobrir quem são os seus ideólogos e em que obras ele se manifesta. Mas, assim como o feminismo, é possível ver algumas afirmações soltas pejorativas contra as mulheres em alguns pensadores, mas não algo de conjunto e organizado para ser chamado de “ideologia”. Seria então uma prática? Qual e realizada por quem? E essa prática seria direcionada apenas para as mulheres e apenas por homens? Não é possível demonstrar isso. Se o homem possui empregada doméstica, a esposa desse homem também. Se o homem trabalha e a esposa cuida da casa, ambos trabalham e permitem a reprodução familiar. Se existe prática realizada contra as mulheres, ela não é coletiva, de todos os homens, não é algo que seria um conjunto ao qual se poderia chamar machismo. Se Fred bate em Ruth, isso é violência contra a mulher num caso específico. Fred, no entanto, não é o conjunto dos homens, é um deles. Não é possível generalizar.

Seria uma forma de preconceito? A grande maioria dos homens adoram as mulheres. Alguns até mesmo idolatram, seja por idealizar a figura feminina, seja por causa da sexualidade. Alguns ficam, por causa disso, totalmente submissos às suas mulheres. É verdade que um grande número de homens questiona e critica as mulheres. Assim como o contrário e o feminismo é expressão organizada disso. Alguns criticam as mulheres devido ao que elas fazem, suas práticas e ações cotidianas. Da mesma forma, as mulheres fazem isso com os homens. E as mulheres, em sua maioria, possuem muitos defeitos. Esses defeitos, não são “natos”, não são parte de uma “natureza feminina”, são produtos da socialização e relações sociais que geram comportamentos padronizados para as mulheres. Então criticar as mulheres não é problema, é uma necessidade e nós deveríamos ser as primeiras a fazer isso. As mulheres são pródigas, principalmente as mais intelectualizadas, em críticas aos homens e ao “machismo”, mas pouco afeitas a criticarem as mulheres e a si mesmas. Algumas feministas radicais criticam os homens e os acusam de “oprimir” as mulheres com as “cantadas”, “olhares”, etc. Realmente, as mulheres raramente fazem isso e os homens geralmente. Isso não é da “natureza masculina” (curiosamente muitas ideólogas feministas querem “desnaturalizar” o sexo feminino e ao mesmo tempo fazem o trabalho inverso de “naturalizar” o sexo masculino). Um pouco de conhecimento histórico mostra isso: já teve uma época em que os homens tinham que “cortejar” as mulheres e isso de acordo com regras morais estabelecidas rigidamente. A mutação do comportamento masculino é resultado de mudanças sociais. Existe algo chamado “sexualidade” e essa é uma necessidade humana e só se realiza se houver possibilidades que são, na sociedade atual, percebidas através de determinados ações, como “cantadas” e “olhares”, bem como por uso de determinadas roupas, entonação de voz, etc., que é o jogo feminino de sedução. Felizmente, os “machistas” ainda não reclamaram dessas práticas femininas que oprimem os homens vendo eles apenas como seres sexuais. A ironia é apenas para dizer que comportamentos comuns, produtos sociais que podem ser questionados, são atribuídos aos homens sob forma moralista e que isso não contribui com a libertação das mulheres. Claro está que existem homens que não fazem o processo de aproximação em relação a uma mulher de forma adequada, são exagerados, desproporcionais, deselegantes, agressivos, entre outros defeitos e problemas, que são individuais (e remonta a educação e vida psíquica dos indivíduos que fazem isso) e não algo dos “homens”. A generalização, novamente, é um equívoco.

Afinal de contas, o que é o machismo? É algo indefinido ou mal definido que não tem base real. Ele simplesmente não existe. O machismo é uma invenção “feminista”. Depois de inventado, é banalizado e reproduzido, usado como arma de luta contra os homens por parte de algumas mulheres. Logo, é algo que não contribui com a libertação feminina e deve ser descartado e em seu lugar deve aparecer um conceito real que aponte para compreender a opressão das mulheres na sociedade atual.

E aí nos deparamos com a pobreza do feminismo. As maiores feministas da história não conseguiram elaborar uma teoria e nem um projeto de libertação, justamente por ficarem presas no edifício ideológico do feminismo, por um lado, e pelas condições sociais e culturais, por outro. Betty Friedan e Simone de Beauvoir apenas lançaram palavras e ideias, sem apresentar uma elaboração ampla e profunda dos problemas que atingem as mulheres (e não só elas). A bazófia do “gênero” é um recuo intelectual, moral e político do feminismo. Todas as ideologias feministas seguem ideologias produzidas por homens (Simone de Beauvoir e o existencialismo sartreano; Betty Friedan e o liberalismo de Locke e outros liberais; as feministas de gênero e Foucault e outros pós-modernos), o que para muitas é algo negativo, o que revela mais uma contradição.

Esse é um falso problema, ou seja, a questão não está no fato de que o esqueleto teórico de base tenha sido produzido por homens e sim quem eram eles e de que perspectiva. O liberalismo é uma das ideologias mais prejudiciais para as mulheres. Por exemplo, as feministas liberais defendem que o “corpo é da mulher” e ela faz o que quiser com o mesmo. É a ideia da propriedade e da mercadoria. O corpo é a mercadoria da mulher. Não é destituído de razão que muitas feministas liberais irão justificar e legitimar uma das piores formas de opressão feminina: a prostituição. Assim como operário vende sua força de trabalho em troca de um salário, a prostituta vende seu corpo temporariamente em troca de dinheiro. Em ambos os casos, são meios de sobrevivência numa sociedade que todas as relações sociais são mediadas pelo dinheiro. Se algumas prostitutas dizem que “gostam”, isso é discurso, seria difícil dizer o contrário. E se algumas, com distúrbios sexuais, realmente gostam, dificilmente gostam de todos os homens (basta ter dinheiro) que aparecem. Isso só tem sentido numa sociedade capitalista, que gera a oferta (mulheres, por carência financeira ou por outros problemas) e a procura (homens fracassados ou insatisfeitos sexualmente por diversas razões), ambas geradas nas relações sociais desta sociedade e não simplesmente coisas naturais.

Um pensamento feminista autônomo, independente, completo, uma verdadeira concepção de mundo, é inexistente. E se existisse, seria algo tenebroso. E existe esse algo sombrio que paira sobre nossas cabeças, mas sua “autonomia” é falsa, é caudatária de ideologias outras, todas muito bem ajustadas à sociedade que gera a opressão feminina. O pensamento da emancipação feminina só pode ser o da libertação humana em geral, pois só é possível abolir uma situação de opressão mudando suas bases reais, existentes de fato, e não simplesmente atacando os indivíduos supostamente opressores.

Diante dos dois problemas colocados: o equívoco do discurso sobre “machismo” e a miséria do feminismo, é necessário apontar para uma saída. Não é possível aceitar a situação de homens e mulheres na sociedade atual, a opressão feminina, a tragédia masculina.

O primeiro ponto é que é necessário uma compreensão mais profunda da situação e opressão da mulher e o segundo é, tendo identificado as causas, atuar para sua abolição. Aqui não poderemos fazer isso. Isso é um projeto que pode se concretizar mas pode demorar anos, da mesma forma que pode ser coletivo e partindo de diversas contribuições, em que pese isso seja mais difícil, pois depende de condições sociais e culturais, inclusive a crítica do feminismo. Aqui o que pode ser feito é uma modesta contribuição que é, a partir da crítica do clichê do “machismo”, tentar apontar para algo real e existente de fato.

Isso, no entanto, nos remete ao problema das bases intelectuais de tal percepção da realidade. Não é nas concepções feministas, produtos de sua época e atoladas até o pescoço na sociedade do presente, que acharemos tais bases. É na crítica do capitalismo apontada por Marx que poderemos avançar nesse processo de discussão. Não é possível retomar sua teoria, apontar a crítica ao capitalismo e todos os elementos derivados, muito menos discutir o tema mais espinhoso do comunismo, que tinha um significado na mente desse pensador, e ganhou outras formulações nos discursos e práticas daqueles que se dizem seus seguidores, os “marxistas”. O que interessa é apenas explicitar que essa é a base intelectual que permite ultrapassar os limites do feminismo e das análises ideológicas e aprofundar a compreensão da situação da mulher (e do homem) e apontar para sua libertação.

O machismo é um termo questionável e destituído de sentido. Um outro termo muito mais adequado já foi utilizado por algumas mulheres e por alguns homens. É o termo sexismo. Claro que as palavras mudam de significado, podem ser deformadas e perder o significado original, podem se esvaziar e tornar apenas armas de luta. Por isso é necessário esclarecer o significado do termo sexismo. O sexismo é um conjunto de ideias e práticas que geram inferiorização do sexo oposto. Isso pode ocorrer através da naturalização (como uma “essência”): “as mulheres são todas iguais”. Essa inferiorização pode assumir uma forma mais extrema, como, por exemplo, condenar o sexo oposto, fundado em concepções (de origem moral, intelectual, psíquica, religiosa, científica, entre outras possibilidades) como sendo “maléfico”, gerando um maniqueísmo. Um discurso sobre a inferioridade da mulher é, portanto, sexismo, bem como sobre a maldade masculina. O feminismo, por exemplo, é amplamente sexista.

Aqui fica fácil ver a diferença. O feminismo (doutrina de mulheres) condena o machismo (produto dos homens). A estrutura desse raciocínio é maniqueísta, o bem é o feminismo, o que as mulheres produzem de representações sobre a relação entre homens e mulheres e o mal é o machismo, o que os homens produzem do lado oposto. A palavra machista é produto de uma estrutura de raciocínio maniqueísta. Ele é gerado e reproduzido por mulheres problemáticas, que tiveram experiências traumáticas com os homens ou oportunistas, que usam isso para proveito próprio. A sua reprodução acaba se generalizando para mulheres bem intencionadas e que lutam contra o sexismo, mas que não possuem reflexão crítica e profunda, ficando no mundo das aparências e sendo reforçadas pelos discursos raivosos das “feministas”.

O termo sexismo não é maniqueísta e percebe que existe conflito e opressão de ambos os lados, embora a opressão dos homens seja mais confortável. O movimento negro não gerou um “negrismo”, apesar de que no seu interior também tenha surgido correntes maniqueístas e extremistas. Os seus grandes pensadores nunca fizeram esse processo de produção de ideologia ofensiva e agressiva contra os brancos. Combateram o racismo, termo que também não é maniqueísta e que também serve para ambos os lados. Combater o racismo significa combater a desigualdade racial e tudo que lhe é derivado, como preconceito, discriminação, violência. O movimento das mulheres deve combater o sexismo e adquirir a mesma generosidade presente no combate ao racismo. Da mesma forma, deve ficar claro que o movimento feminino não é a mesma coisa que feminismo. O feminismo é um conjunto de ideologias que impregnam grande parte das lutas das mulheres e é bem diminuto na luta das que são trabalhadoras e estão lutando não contra os homens e sim contra a classe dominante que gera sua situação de classe e sua inferiorização de sexo.

O sexismo é predominantemente contra as mulheres, mas não é uma construção masculina e sim social, que, inclusive, conta com a colaboração de algumas mulheres. Nesse sentido, o movimento das mulheres deve ser antissexista. O antissexismo não pode ser a única bandeira das mulheres. O sexismo tem raízes sociais e por isso não é combatendo e demonizando os homens, nem judicializando tudo, ou, ainda, com políticas de privilégios para mulheres, que se resolve a questão. O antissexismo é uma bandeira das mulheres. O seu valor, no entanto, reside em superar a superficialidade do feminismo, com seus reducionismos e maniqueísmos, e colocar em questão as causas do sexismo. As causas do sexismo residem na sociedade no seu conjunto, na estrutura social capitalista. Por isso, a luta das mulheres não deve ser contra coisas imaginárias, como o “machismo”, “dominação masculina”, “os homens”, e sim contra o sexismo (de ambos os lados) e contra o capitalismo, a base real que gera o sexismo e a opressão das mulheres. A luta das mulheres só pode ser antissexista e anticapitalista, combatendo os efeitos e as causas. Uma coisa complementa a outra. Por isso é possível dizer que a luta feminina é, essencialmente, uma luta antissexista, que é, simultaneamente, por não ser superficial, anticapitalista.

Logo, ao invés de movimento feminista, o que deve existir (e é o que existe concretamente, em grande parte dos casos) é o movimento feminino e ao invés de ideologia feminista, o que proponho é uma teoria antissexista. O antissexismo é antifeminista, pois a estrutura de pensamento feminista é reducionista, maniqueísta, sexista. Assim, o feminismo é separatista e o antissexismo é unionista. O primeiro separa o mundo entre homens e mulheres e coloca a guerra entre ambos como o elemento fundamental; o segundo compreende o mundo sob forma muito mais complexa e totalizante, colocando que a divisão entre homens e mulheres é produzida social e historicamente e por isso a transformação social é o objetivo e essa ocorre no plano da luta de classes e não de “sexos”. Os limites do “feminismo” são por demais evidentes e seu vínculo com os poderes estabelecidos e com as ideologias dominantes é demasiado claro para enganar as pessoas que ultrapassaram as visões superficiais do mundo e são honestas na luta pela emancipação humana.

O movimento feminino deve encampar a luta das mulheres contra o sexismo e suas bases materiais. É um movimento revolucionário ou não é nada.


[1] Autora de Critique of Feminism.

domingo, 6 de março de 2016

A quem interessa o feminismo culturalista?

O feminismo culturalista hoje reinante é de interesse de quem?

A questão cultural é importante e faz parte das lutas femininas e, mais especificamente, das mulheres trabalhadoras. O feminismo culturalista compartilha não somente os limites do feminismo em geral, como agrega valor ideológico ao mesmo. O culturalismo é um mau da sociedade capitalista "pós-moderna". O feminismo culturalista é apenas um remendo mal feito desse mau. Os problemas do feminismo culturalista, na sua parte culturalista, pode ser destacado e dividido em dois principais:

a. a cultura passa a ser o centro da ação feminina, isolado do mundo circundante. O feminismo em si tem a tendência de isolar as relações entre os sexos e esse "novo feminismo" aprofunda isso tornando essa relação meramente cultural. E transforma o cultural em essencial. Isso começou com as discussões sobre "gênero" e se aprofunda mais recentemente com as supostas "radicais", radicais sem raízes, no fundo, extremistas narcisistas. Isso é produto da "cultura do narcisismo" (Lasch) e do essencialismo cultural (Young). O social é expulso pelo cultural e nesse campo, a ideologia reina totalmente. Sempre foi papel da ideologia autonomizar as ideias.

b. a história da cultura é esquecida. A sua produção e sua lógica de produção é abandonada e naturalizada. A cultura passa a ser produto dos homens machistas, por serem homens (e naturalmente e essencialmente "machistas"*). A cultura é produto dos homens machistas por causa da essência masculina (e, contraditoriamente, afirmam que não existem "essências" ou "essências femininas"). Essa explicação simplista e sem base real, tão semelhante ao fascismo**, explicado por Young, mostra os limites do culturalismo. Uma outra vertente aponta para uma cultura superior e acima dos indivíduos, classes, épocas, que teria produzido a superioridade masculina. A história é esquecida, a formação das sociedades de classes é esquecida, o capitalismo é esquecido. Só restam homens e mulheres e fora da história. Uma terceira vertente coloca que a cultura e a razão são tipicamente masculinos e servem para a dominação dos homens. Essa ideia extravagante (e algumas se inspiram na balela da existência de dois hemisférios cerebrais, um sendo masculino e racional, e outro sendo feminino e sentimental). 

Essa última vertente fornece a imagem do feminismo culturalista em sua face mais interessante. A diferença entre homens e mulheres não está mais no sexo (e por isso a mudança de palavra, para "gênero"), ou seja, nos órgãos sexuais, e sim no cérebro, saiu da biologia e foi para a cultura e, nessa vertente, para o cérebro emocional. Isso explicaria as razões da histeria de algumas feministas culturalistas, as radicais sem raízes, e sua adorável simplicidade e falta de cultura, teoria, aprofundamento em qualquer coisa. Basta sua emoção cerebral, reduzindo a mulher a um ser irracional, ao gosto do pós-modernismo e aos estereótipos femininos que antes eram criticados pelas feministas. Contradições e mais contradições. 

Assim, o feminismo culturalista produz desde a estupidez de querer uma "epistemologia feminista" (!!), que significa elevar ao mais alto grau uma ideologia (a feminista) até a parvoíce de recusar a reflexão, a pesquisa, a teoria, o saber. A loucura feminista deve ser substituída pela razão humana, único meio de libertação das mulheres e homens trabalhadores. 

A quem interessa o feminismo culturalista? Interessa aqueles que querem trocar as mulheres bibelôs por bibelôs mulheres, mudar para nada mudar. Também é interesse das feministas acadêmicas que querem disputar espaços e cargos (igual uma mulher do PDT falou ontem na TV, o negócio é cargos no poder, mais mulheres - como ela, pois não é para as mulheres trabalhadoras - no poder, o que tem como consequência menos poder para as mulheres trabalhadoras e mais legitimidade para o poder que produz e reproduz a exploração e opressão dos trabalhadores e trabalhadoras) e o feminismo é sua moeda de troca. Esses dois interesses, por sua vez, se casam perfeitamente com os interesses da classe dominante, que explora os trabalhadores e as trabalhadoras, as famílias trabalhadoras. Além da prostituição feminina, o capitalismo conseguiu criar a prostituição feminista.




* Em breve vamos traduzir e publicar o texto de Stella Anderson sobre "machismo".
** Vamos postar um texto do João Bernardo sobre isso.